Cestas em transformação

Peru e Chile estão reorganizando suas cestas de exportação agrícola, tendo o mirtilo como ativo estratégico.

Um estudo da Fresh Fruit compara a estrutura de exportação agrícola do Peru e do Chile entre 2021 e 2025. Os dados mostram como ambos os países construíram cestas agrícolas multimilionárias com forte ênfase em frutas frescas, onde o mirtilo se destaca como um produto-chave em termos de valor, oportunidades de mercado e complementaridade entre origens.

Peru e Chile se consolidaram como dois dos mais importantes exportadores agrícolas do Hemisfério Sul. Em 2024, as exportações agrícolas peruanas totalizaram cerca de US$ 12.300 bilhões, enquanto as chilenas atingiram aproximadamente US$ 13.100 bilhões. Em 2025, a diferença diminuiu ainda mais: entre janeiro e outubro, o Peru acumulou cerca de US$ 11.300 bilhões em embarques agrícolas, em comparação com aproximadamente US$ 10.700 bilhões do Chile, com meses cruciais ainda pela frente.

Uma análise realizada pela Fresh Fruit e pela Preciso Consultoría mostra que o crescimento peruano entre 2021 e 2024 ocorreu a uma taxa de crescimento anual composta de aproximadamente 12,4%, superior aos 7,6% registrados pelo Chile. Esse dinamismo foi impulsionado por produtos de destaque como... oxicocoUvas e abacates no caso peruano, e cerejas, uvas de mesa e vinho no caso chileno, em cestas dominadas por frutas frescas e produtos agroindustriais.

Mas o contexto em que as exportações agrícolas estão crescendo tornou-se mais complexo: tensões geopolíticas, regulamentações sanitárias mais rigorosas, exigências ambientais e consumidores menos tolerantes à volatilidade. Nesse cenário, analisar apenas o agregado das “exportações agrícolas” já não é suficiente; a verdadeira capacidade de adaptação reside na estrutura da cesta de exportações: quais produtos têm maior peso, qual o grau de concentração existente e como os produtos sul-americanos interagem entre si nos mercados globais.

Dois modelos de exportação agrícola bem-sucedidos

O estudo mostra que o Peru e o Chile compartilham características claras: em menos de vinte anos, construíram plataformas de agroexportação que movimentam bilhões de dólares, geram centenas de milhares de empregos e transformaram territórios inteiros. No entanto, a estrutura de suas cestas de exportação difere: a do Peru se baseia em culturas que exigem muita mão de obra, muitas delas tropicais ou subtropicais; a do Chile, em frutas, nozes e vinhos de clima temperado.

No Peru, o núcleo da cesta de exportações de 2024 é composto por cinco produtos: mirtilos (US$ 2.342 bilhões), uvas (US$ 1.742 bilhão), abacates (US$ 1.385 bilhão), cacau (US$ 1.227 bilhão) e café (US$ 1.138 bilhão). Juntos, eles representam aproximadamente 64% do valor das exportações agrícolas; se ampliarmos nossa análise para os 10 principais produtos — incluindo aspargos, mangas, tangerinas e limões — a concentração se aproxima de 80%. Os mirtilos lideram esse grupo e se tornaram um dos símbolos do boom das exportações agrícolas peruanas.

O Chile, por sua vez, apresenta uma cesta com forte ênfase em frutas de clima temperado e produtos processados. As cerejas se tornaram um ícone global, com grande foco na Ásia; as uvas de mesa continuam sendo um produto tradicional; mirtilos, kiwis e ameixas, frescos e congelados, complementam a oferta de frutas; e uma seleção de nozes e frutas secas — nozes, avelãs e ameixas secas — proporciona maior durabilidade e prazo de validade. O principal diferencial é a presença do vinho engarrafado, que posiciona o Chile em segmentos onde a origem é parte explícita da proposta de valor.

O mirtilo como elemento central da cesta peruana

Ao analisar o ranking de 2025 (janeiro a outubro), o peso de oxicoco Na cesta de consumo peruana, isso fica ainda mais evidente. As frutas vermelhas já totalizam quase US$ 1.939 bilhão, superando o abacate (US$ 1.603 bilhão), o café (US$ 1.468 bilhão) e o cacau (US$ 1.413 bilhão). Uvas de mesa, mangas e aspargos completam o grupo de produtos que conferem massa crítica à oferta, mas é o oxicoco Aquela que concentra os períodos de pico de exportação entre agosto e outubro, marcando a alta temporada peruana.

Essa proeminência acarreta tanto oportunidades quanto riscos. Por um lado, os mirtilos permitiram que o Peru se posicionasse como um fornecedor chave de bagas Na América do Norte, Europa e Ásia, aproveitam-se as janelas de oportunidade em que outras origens reduzem a sua oferta. Por outro lado, isso expõe a cesta a congestionamentos portuários, alterações nos protocolos fitossanitários e maior sensibilidade à entrada de novos concorrentes no mesmo segmento. frutas vermelhas frescas.

No Chile, o oxicoco Também figura entre os dez principais produtos, embora com uma participação relativamente menor em comparação com cerejas, vinho e uvas de mesa. O estudo estima que, em 2025 (janeiro a outubro), as exportações gerarão aproximadamente US$ 662 milhões. oxicocoIsso contrasta com os US$ 1.846 bilhão para cerejas, US$ 1.313 bilhão para vinho e US$ 1.219 bilhão para uvas de mesa. O setor chileno depende de safras mais sazonais, com alto valor concentrado em curtos períodos, onde os mirtilos coexistem com outras frutas na definição da oferta total.

Vitrines comerciais, concorrência e complementaridade em frutos silvestres.

A análise comparativa das curvas mensais de oxicoco Isso revela tanto competição quanto complementaridade entre o Peru e o Chile. Enquanto o Chile concentra a maior parte de seus embarques entre dezembro e maio, o Peru processa a maior parte de sua safra de agosto a janeiro. Do lado da demanda, os compradores internacionais negociam com ambos os países pelo mesmo produto, mas dentro de prazos interligados que garantem um fornecimento quase contínuo do Hemisfério Sul.

Algo semelhante ocorre com uvas e abacates, embora, no caso dos mirtilos, a interpretação seja especialmente relevante para a indústria: trata-se de uma fruta de alta rotatividade, com forte presença em categorias de valor (produtos frescos de supermercado, misturas para o café da manhã, lanches saudáveis) e sujeita a crescente pressão em relação aos padrões de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. A coordenação de tamanhos, condições e logística entre as origens pode fazer toda a diferença na forma como o "abastecimento andino" é percebido. bagas.

Além de oxicocoA complementaridade também é estrutural. O Peru contribui com culturas nas quais o Chile tem pouca participação — café, cacau, bananas orgânicas, gengibre e diversas polpas de frutas tropicais — que são essenciais para a indústria de alimentos e bebidas e para segmentos de consumidores preocupados com a saúde. O Chile adiciona cerejas, nozes, maçãs, kiwis, ameixas secas e vinho, produtos que o Peru não expandiu na mesma escala. De um supermercado europeu ou de uma plataforma logística asiática, a combinação das duas cestas cria uma oferta ampliada de frutas andinas, onde as frutas vermelhas ocupam um lugar cada vez mais importante.

Na análise final do estudo, as vulnerabilidades do Peru e do Chile convergem: alta dependência de poucos corredores logísticos, portos sobrecarregados durante a alta temporada, regulamentações crescentes sobre emissões de carbono, desmatamento e pegada hídrica, e ciclos de preços que podem se inverter rapidamente para cerejas, mirtilos, abacates, cacau e café. Olhando para o futuro, até 2026, a agenda para ambos os países envolve melhor gestão de riscos, diversificação de mercado e agregação de valor, em um contexto onde... bagas —e em particular o mirtilo— continuará sendo uma das peças estratégicas do hemisfério sul no tabuleiro de xadrez global das agroexportações.

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